Cultura como Agitação e Propaganda: Comunicação Popular e Organização Política no Levante Popular da Juventude

  • Autor
  • Azrael Criollo Hakan Coelho dos Santos
  • Resumo
  • Este trabalho investiga a cultura como forma de comunicação popular e tecnologia organizativa nos movimentos sociais contemporâneos, deslocando a arte de seu papel tradicional de representação simbólica para compreendê-la como prática material de produção de consciência, pertencimento e ação coletiva. A partir de um diálogo entre Walter Benjamin, Bertolt Brecht e Paulo Freire, o trabalho argumenta que a estética insurgente constitui uma infraestrutura comunicacional contra-hegemônica, capaz de disputar sentidos no espaço público, reorganizar afetos e formar sujeitos políticos em contextos de desigualdade estrutural e mercantilização da vida.

    Como campo empírico e político, o trabalho analisa o Levante Popular da Juventude, movimento nacional que articula organização popular, formação política e produção cultural como dimensões indissociáveis da luta social. No Levante, práticas como batucadas, palavras de ordem, místicas, intervenções urbanas, performances dissidentes e ocupações simbólicas do espaço público operam não apenas como expressões culturais, mas como dispositivos comunicacionais populares, produzidos coletivamente, enraizados nos territórios e orientados à transformação social. Essas práticas reconfiguram a comunicação como experiência viva, corporal e relacional, rompendo com os regimes dominantes de mediação midiática baseados na espetacularização, na passividade do consumo e na lógica mercantil da informação.

    Inspirado na noção benjaminiana do “autor como produtor”, o artigo sustenta que essas formas comunicacionais insurgentes não se limitam à circulação de conteúdos críticos, mas transformam as próprias condições de produção e recepção da comunicação. O público deixa de ser consumidor e passa a ser produtor de sentido; a linguagem deixa de ser instrumento neutro e torna-se território de disputa; a estética deixa de ser ornamento e passa a ser meio organizativo. Em convergência com Brecht, argumenta-se que essas práticas instauram dispositivos de estranhamento político capazes de romper a naturalização das desigualdades sociais, enquanto, com Freire, são compreendidas como pedagogias populares que produzem conscientização por meio da experiência compartilhada e da leitura crítica do mundo.

    Metodologicamente, o trabalho adota abordagem qualitativa, combinando observação participante, análise de práticas culturais em atos públicos, registros audiovisuais e reflexão teórico-política situada, a partir da inserção militante no movimento. Essa perspectiva permite compreender a comunicação não como transmissão de mensagens, mas como processo coletivo de produção de mundo, em que cultura, política e educação se entrelaçam de forma indissociável.

    Conclui-se que, no contexto de crise da mediação jornalística tradicional e de intensificação da mercantilização da comunicação, as práticas culturais do Levante configuram experiências concretas de comunicação popular, alternativa e comunitária, ao produzirem narrativas contra-hegemônicas, fortalecerem vínculos territoriais e promoverem formas coletivas de enunciação política. A cultura, nesse horizonte, não é suplemento da luta social, mas sua própria gramática comunicacional: um modo de organizar corpos, afetos e sentidos em direção à emancipação coletiva.

  • Palavras-chave
  • Comunicação popular; Cultura insurgente; Estética política; Organização popular; Levante Popular da Juventude.
  • Modalidade
  • Comunicação oral
  • Área Temática
  • GT 2 - Comunicação popular, alternativa e comunitária
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